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EDITORIAL DO MÊS DE ABRIL DE 2026

AS FACES DA DEPRESSÃO

MARIA INÊS MACHADO

l.

Dentre os inúmeros problemas que assolam a humanidade, a depressão certamente merece destaque, não só por sua íntima relação com o suicídio, como também pela profunda dor psíquica que impõe ao indivíduo. Atingindo cerca de 15% da população, e podendo alcançar até 25% quando se trata das mulheres, já foi considerada por diversos estudiosos como uma verdadeira pandemia silenciosa. Apesar disso sua presença acompanha a humanidade desde tempos remotos, ainda que sob outras denominações, especialmente “melancolia”. No Antigo Testamento, por exemplo, a história do rei Saul sugere um quadro compatível com sofrimento depressivo, assim como diversas passagens do Livro de Jó, marcadas por angústia, desesperança e sentimentos existenciais profundos. Durante a Idade Média, a compreensão da depressão esteve fortemente associada a interpretações religiosas rígidas, sendo muitas vezes considerada resultado de pecado, fraqueza moral ou até possessão espiritual. Essa visão contribuiu para o estigma que, em certa medida ainda persiste. A partir dos séculos XVIII e XIX, com o desenvolvimento da medicina moderna e da psiquiatria, iniciou-se uma mudança  fundamental: a depressão passou a ser estudada como condição clínica. A descrição sistemática dos sintomas, a observação da sua evolução e, posteriormente o surgimento da psicofarmacologia no século XX consolidaram a ideia de que se trata de um transtorno de saúde, passível de tratamento e investigação científica. Esse movimento foi essencial para retirar o peso moral da doença,  permitindo uma abordagem mais humanizada e baseada em evidências.  Apesar dos avanços científicos, não há uma causa única para a depressão. A medicina contemporânea compreende sua origem a partir de um modelo biopsicossocial, no qual interagem múltiplos fatores: Biológicos: predisposição genética, alterações neuroquímicas, disfunções em circuitos cerebrais e respostas ao estresse; Psicológicos: padrões de pensamentos negativos, baixa autoestima, traumas, perdas e dificuldades de regulação emocional; Sociais: isolamento, condições socioeconômicas adversas, conflitos interpessoais e eventos de vida estressantes. Essa complexidade explica por que a depressão se manifesta de formas variadas e exige abordagens terapêuticas individualizadas.  Apesar dos avanços científicos, a prática clínica evidencia uma limitação importante: a simples redução dos sintomas não garante a restauração do bem-estar pleno. Muitos indivíduos permanecem com a sensação de vazio, falta de propósito e dificuldade em tomar decisões alinhadas com seus valores.  Nesse contexto, destaca-se a contribuição da psicologia positiva, desenvolvida por Martin Seligman.  Essa abordagem propõe um deslocamento paradigmático, do foco exclusivo da doença para a promoção de forças humanas.  Elementos como resiliência, gratidão, engajamento e propósito passam a ocupar papel central no processo terapêutico.  A psiquiatria positiva derivada desse movimento, introduz o conceito de felicidade autêntica, entendida como a integração entre prazer, envolvimento e significado existencial.  Evidências empíricas indicam que intervenções baseadas nesses princípios, não apenas reduzem sintomas depressivos, mas também fortalecem a capacidade adaptativa e a qualidade das decisões ao longo da vida.  O tratamento da depressão exige, na maioria dos casos, uma abordagem integrada:  Psicoterapia: fundamental para compreender e ressignificar experiências, desenvolver habilidades emocionais e prevenir recaídas; Medicação: especialmente indicada em quadros moderados e graves, atuando na estabilização dos sintomas e permitindo melhor resposta terapêutica;  Apoio social: essencial para reduzir isolamento e fortalecer vínculos.  Essa combinação quando bem indicada, oferece os melhores resultados clínicos.  Nas últimas décadas, estudos tem investigado a relação entre espiritualidade e saúde mental. O psiquiatra Harold Koenig é um dos principais pesquisadores desta área, demonstrando que para muitos indivíduos, a espiritualidade pode funcionar como importante recurso de enfrentamento,  Entre os benefícios observados estão: maior sentido da vida; redução da desesperança; melhor adaptação ao sofrimento; possível redução de sintomas depressivos em determinados contextos.  É importante ressaltar que a espiritualidade não substitui o tratamento médico, mas pode atuar como complemento valioso quando respeita a autonomia do paciente e não reforça sentimento de culpa.  Inspirados nos ensinamentos de Allan Kardec, a depressão pode ser analisada sob aspectos espirituais e existenciais buscando compreender o sofrimento humano de forma mais ampla.

Maria Inês Machado é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Terapia Familiar, possui formação em Psicologia Positiva e atua como trabalhadora voluntária na Fraternidade Espírita Francisco Peixoto Lins (Peixotinho)

Rua João Manguinhos, 140 Bairro Novo - Olinda, PE

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