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EDITORIAL DO MÊS DE FEVEREIRO DE 2026

HUMILDADE COM JESUS

GUSTAVO  MACHADO

"Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mateus 16:26; Marcos 8:36).  A pergunta de Jesus enseja uma reflexão e um ensinamento profundo.  Atravessa os séculos porque continua atual.  Vivemos em uma cultura que celebra demasiadamente o sucesso, a ascensão, o acúmulo e o reconhecimento, muitas vezes sem indagar o preço interior dessa conquista. O mundo aplaude quem chega ao topo, mas raramente se interessa pelo que foi deixado pelo caminho e como foi percorrida essa trajetória: valores, vínculos, coerência,  paz de consciência.  Ganhar o mundo, aqui, não é apenaspossuir bens ou poder, mas, sobretudo, o como e a forma de adquiri-los. É organizar a vida a partir do ego, da necessidade de controle, do orgulho travestido de mérito, sem se importar com a maneira como essa construção se estabelece, se passa por cima de outrem e quais meios são lançados. É vencer por fora enquanto se apequena por dentro. 

 

É construir uma biografia admirável aos olhos alheios e, ao mesmo tempo, um vazio silencioso  no íntimo da consciência. Por isso, quando Jesus afirma: "O meu Reino não é deste mundo" (João 18:36).  Ele não está negando simplesmente a vida material, nem propondo uma fuga da realidade.  Está dizendo algo mais profundo: o Reino de Deus  não se organiza pela lógica do poder, da força ou da vaidade, mas por uma ordem moral que começa no coração.

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Essa lógica se torna concreta  no episódio narrado por João (13.1-17), quando Jesus, durante a ùltima Ceia, levanta-se da mesa, tira o manto, cinge-se com uma toalha  e lava os pés dos discípulos. Um gesto simples  e intensamente "subversivo".  Lavar pés era tarefa de escravizados, não de mestres e muito menos de alguém reconhecido como Senhor.  Ali, Jesus não apenas ensina.  Ele vive o ensinamento: "Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei  os pés, vós deveis também lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também" (João 13:14-15). Um gesto que nos toca mais fundo do que parece, porquanto desmonta a estrutura íntima do orgulho humano. A grandeza no Reino de Deus,  não está em ser servido, mas em servir conscientemente. Não está no lugar que ocupamos ,  mas na disposição e na forma com que nos colocamos nesse lugar à disposição do outro.  À luz do Espiritismo, esse ensinamento se apresenta como um convite à reforma interior.   

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O orgulho e o egoismo (O Livro dos Espíritos - questão 785) são compreendidos como entraves evolutivos,  sombras do ego que nos mantém presos a ilusões transitórias.  A verdadeira ascenção do espírito não ocorre pelo destaque social, mas sim,  pela transformação moral.  Não pelo aplauso externo. mas pela coerência íntima.  Servir, nesse contexto, não é humilhação. É libertação. É sair do centro narcísico do "eu" para reconhecer o outro como semelhante em dignidade e essência espiritual. É compreender que toda autoridade legítima é, antes de tudo, responsabilidade.  E que o poder pelo poder, o poder que não se converte em cuidado, em atitudes nobres e em real propósito de transformação pessoal e auxílio ao próximo, se esvazia de sentido.

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Jesus não propõe um Reino distante, restrito apenas ao pós-morte do corpo físico.  Ele inaugura um Reino possível na Terra, aqui e agora, toda vez, que alguém escolhe a humildade em vez da vaidade, o amor em vez da disputa,  o serviço em vez da dominação. Um Reino que começa pequeno, invisível aos olhos do mundo e, muitas vezes, desapercebido, mas imenso aos olhos da consciência e de Deus.  No fim, a pergunta permanece ecoando: de que vale conquistar tudo fora, se perdemos a nós mesmo por dentro? O Cristo, portanto, não nos chama a abandonar o mundo, mas a não nos perdermos nele. A viver nele sem sermos dele e sem estarmos presos às mazelas morais, frutos do orgulho e do egoismo.  A lembrar que o verdadeiro Reino não se mede por títulos,  cargos ou conquistas, mas pela capacidade de amar, servir e permanecer fiel à própria alma e à parcela da essência divina que habita em nós.

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E, silenciosamente e com amorosidade, Jesus continua lavando nossos pés. E esperando que um dia aprendamos, enfim, a fazer o mesmo. 

 

Gustavo Machado trabalha na Fraternidade Espirita Francisco Peixoto Lins (Peixotinho)                                       

Rua João Manguinhos, 140 Bairro Novo - Olinda, PE

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